Rocola Bicha: Linn Da Quebrada

“É presente. É encontro. É viva. Pois o que eu estou fazendo é me expondo. E expor as minhas fragilidades, e encontrando nesses outros corpos minhas potências. Isso é o que eu sinto. E mais uma vez falo de mim e por mim.”

Rocola Bicha: Notas marginales de HiedraH Club de Baile por Ramera


Texto // HiedraH Club de Baile y Ramera
Foto // Vivi Bacco

É noite e Linn caminha por uma rua deserta, usa shorts e prata corpete, mas a única coisa que brilha sobre o cimento é ela: Linn andando com passos seguros, Linn abrindo a boca para dizer palavras precisas, Linn dançando ao ritmo do funk brasileiro. À noite, pelas ruas, andando de canto a canto, não é um homem ou mulher é uma travesti feminina. Linn entra no carro de um homem que acaricia suas pernas, ela sorri com astúcia, talvez por conveniência, talvez sabendo que o corpo é a sua arma; seus irmãs dançam em um clube, mas mais do que isso, com cada movimento elas tornam-se livre de todas as misérias em sua história, mas são liberadas juntas e, entretanto, o carro pára, um grupo de homens arrastar Linn o piso para empurrá-la, espancá-la, tocá-la. Não tem Deus, não tem país, não tem marido ou padrão. A violência continua a Linn, e entretanto, um grupo de travestis caminha com passos precisos, urgentes agora. Seu segredo é ignorado por todos, até o espelho. Mulher. Tem sido sempre um homem para cada mulher, mas há dez mulheres para cada homem. Linn é abusada por quatro homens no capô do carro, eles não vêem pára trás dez mulheres, observando-os, até que elas gritam. Um grito forte e coletiva resgata Linn de a covardia dos homens. Mulher! É sempre uma mulher. É noite e Linn caminha por uma rua deserta, usa shorts e prata corpete, mas a única coisa que brilha sobre o cimento é ela. Então, eu aplaudo travestis lutando para existir, que a cada dia conquistam seu direito de brilhar e viver, aplaudo travestis lutando para existir, que a cada dia estão lutando para conquistar seu direito de viver, brilhar e arrasar, viver, brilhar e arrasar.

Acabei de descrever são as imagens de BlasFêmea, a primeira obra audiovisual dirigido e estrelado por Linn da Quebrada, mas também são imagens da realidade enfrentada por trabalhadoras do sexo de qualquer rua surburban na América Latina. Linn é uma terrorista de gênero que se comunica através de sua arma mais precioso: seu corpo. Ela é uma cantora, bailarinx, performer, bicha e trans, mas acima de tudo é um corpo em construção, que pudo ser reconhecido como tal, uma vez deixou para trás a culpa a sociedade impõe-nos quando não somos o que heteronormatividade nos diz que devemos ser. Então, aos 17 anos Linn começou desprender se de sua educação como uma Testemunha de Jeová e como uma pessoa jovem nascida em um subúrbio de São Paulo, para começar a ser ela mesma, e em seguida, o funk -pertencente à expressão popular de favelas brasileiras e fora do Brasil conhecido como funk carioca- foi um dos suas canais de comunicação. Com sua vídeo “Envadecer”, Linn foi capaz de expandir a sua mensagem para alcançar muitas pessoas e ser agora uma dxs artistas que chamam a atenção no Brasil, e é aí que o seu corpo se torna uma arma através da voz, a dança, a performance: O Brasil é o país com taxa de homicídios de mulheres trans mais alta do mundo e Linn torna visível este fato através de ser, neste momento, cantora: “Eu encontro na música a possibilidade de resistência, da existência, ocupação e invasão”.

No entanto, como ela diz em suas letras, a pesquisa por ser ela mesma é algo que nunca termina e assim sua voz procura muitas formas de comunicar: além de seu trabalho como cantora, Linn realiza vários projetos como Bixaria Pocket Show, Coletive Friccional, Dpósito y Contar os Corpos e Sorrir?, entre outros, onde é sempre o corpo e as possíveis formas de canal de expressão, misturando teatro com música e protesto. Atualmente, Linn lançou uma campanha de angariação de fundos através da plataforma kickante.com para gravar seu próximo álbum, Pajubá, buscando colaboração coletiva; esta forma de realização de seu álbum independente também propõe novas formas de produção na cultura, estabelecendo novas redes de conectividade e comunidade através da tecnologia. Aqui, a troca tivemos de Revista Ramera e HiedraH Club de baile com ela.

 

1) Você teve uma educação religiosa desde cedo. Como afetou este fato em sua identidade?

Me afetou nos limites e contornos que minha vida foi ganhando. Mas a questão é que há algumas identidades tidas como erro e desvio para esse sistema e assim, grande parte das coisas que reconhecia, como meus desejos, afetos, e vontades, me vinham seguidas de culpa. Era como se eu tivesse que abrir mão de mim mesma para fazer parte, para pertencer.  Até o momento em que tomo as rédeas de meu corpo e afirmo minha existência como algo positivo, assumindo corpo. Este corpo.

2) Como começou a fazer música e o que a música significa para você?

Comecei a fazer música muito despretensiosamente. Eu já fazia coisas, já criava. Estava envolvida com performances do corpo e trazendo questões relativas a ele. Coisas relativas a sexualidade, gênero, relações. E percebi o quanto isso tudo dizia respeito a muitas outras pessoas, que também viviam coisas semelhantes e se identificavam no que eu produzia. E algo que eu sempre busquei com minha arte é o diálogo. Morando com a Liniker Barros – da banda Liniker e Os Caramelows -, uma amiga cantora e mulher trans, pude perceber a música como ferramenta de comunicação. E então, meio que sem pretensão alguma eu começo a escrever e a mostrar essas composições para algumas pessoas próximas. Começo a compor como resposta não só a outras músicas, mas também como resposta ao que vivo. Com isso percebi a potência de se produzir linguagem. A música é muito acessível e com isso eu podia trocar com pessoas que não estavam tão próximas. Podia estabelecer pontes e criar diálogo.

3) Você se define como “bicha, trans, preta e periférica, nem ator, nem atriz: atroz, bailarinx, performer e terrorista de gênero”. Como uma identidade trans terrorista é construída em um circuito heteronormativo como o do funk?

 

Da mesma forma como essas identidades se desenvolvem e se constroem nessa sociedade, que é cisheteronormativa igual. Não é exclusividade do funk, muito pelo contrário. O funk pode ser mais uma de suas facetas, assim como pode ser também veículo de transformação, combate e informação.
4) Ser uma ativista feminista trans através deste ritmo, como você lida com os mecanismos que regem os clubes e casas de shows? Nesse sentido, que medidas você toma para fazer um show ao vivo?

Isso tudo tem sido muito novo pra mim. E tenho entendido quais são os mecanismos de funcionamento dessa máquina. Mas estou no jogo, jogando com as possibilidades. Entendendo quais são as regras e tensionando-as a partir do que é dado e do que posso fazer. Meu lance com show é a relação com público e as pessoas que fazem o babado acontecer junto comigo. Dado isso, está valendo.

5) No seu ativismo você fala sobre corpos. Que corpos são esses e como é a resposta emocional que eles têm?

Primeiramente eu falo sobre mim, sobre o meu corpo. Esse é o meu ponto de partida. Esse corpo que não está finalizado, mas se encontra em processo constante de transformação. Que é movimento e com isso acabo me encontrando com outras semelhantes. Que assim como eu, não se reconheciam na maior parte das obras, não só musicais, mas da arte da representação em geral. E a resposta é imprevisível. É presente. É encontro. É viva. Pois o que eu estou fazendo é me expondo. E expor as minhas fragilidades, e encontrando nesses outros corpos minhas potências. Isso é o que eu sinto. E mais uma vez falo de mim e por mim.

6) O Brasil, como em toda a América Latina, está passando por uma curva à direita nas suas políticas, como isso afeta ativistas minoritários como os da causa trans, por exemplo?

Afeta mais uma vez negando nossos direitos, Nos colocando à margem, nos deixando de escanteio. Como se não tivéssemos importância. E como nós somos a exceção em relação a regra, tudo aquilo que estávamos conquistando se vê mais uma vez ameaçado. Mas a questão é justamente se mover e não se conformar. É criar estratégias, nos proteger e defender nossos direitos. E tensionar as relações políticas à nosso favor. Pensar a diferença e exercer alteridade. Pensar nos efeitos do que vem acontecendo para além do próprio umbigo também. Se por no lugar do outro e da outra. Buscar informações, saber o que está acontecendo, entender como isso nos afeta e quais medidas podemos tomar coletivamente.